O Shopping

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O Shopping

Por: Waldenis Lopes

Parte I

 

A noite havia chegado mais rápido naquele dia.

Depois de algum tempo sem poder aparecer, lá estava ele. Caíque costumava ir quase sempre à casa de seu amigo Breno, mas por causa da faculdade, lhe faltava tempo. Os dois se conheciam há bastante tempo, já haviam estudado juntos, moravam perto um do outro e conversavam muito.

— Cara, cê conhece esse site, aqui? –perguntou Breno.

— Deixa eu ver…

Os dois estavam em frente ao computador. Breno navegava num site de entretenimento, que aparentava ser interessante. Caíque estava em pé ao seu lado, observando o monitor.

— O Minilua, Caíque! Não conhece?

—Hum… Eu acho que já vi você compartilhar alguma coisa no Facebook desse site, aí… O que tem de bom nele?

— Ah, muitas coisas! Mas o que eu mais gosto são os contos…

— Eróticos? –soltou Caíque. Breno virou a cabeça e encarou seu amigo. Sua expressão séria deixava qualquer um constrangido.

— Brincadeira, irmão… –disse Caíque, sem graça e olhando para a janela.

Enquanto ele olhava para fora, Breno citava o nome de alguns contos, afirmando que os de terror eram os melhores. Fora da janela do quarto de Breno podia-se ver a rua, atrás das grades da casa. Havia algumas plantas lá fora, as folhas caíam de uma árvore, o vento começava a assoprar fazendo um barulho de vozes gemendo…

— Essa tela preta dos contos de terror faz doer os meus olhos… –sussurrou Breno.

Caíque viu uma figura encapuzada na rua, andando em direção a casa. Ele esfregou os olhos e olhou de novo, a figura não estava mais a vista. Ele então sentiu um calafrio. Ao sentir isso, a luz do quarto estremeceu e ameaçou apagar, o estabilizador do computador deu um estalo.

— Queda de energia logo agora? –resmungou Breno. A luz normalizou-se. —Ainda, bem.

— Que sensação estranha… -Caíque se aproximou lentamente da janela. Abriu-a inteira e observou o lado de fora. Breno estava distraído, vasculhando o site, procurando a história mais interessante para poder mostrar ao amigo. Ele olhou de soslaio para Caíque e perguntou:

— Aconteceu alguma coisa?

— Não, nada… Só senti uma coisa estranha.

— Confesso que de noite deixo essa janela fechada, por medo de ver alguma coisa aí. Pra mim virou mania. Relaxa, tem nada aí não.

Caíque saiu de perto da janela e se virou para Breno. A janela era daquelas gradeadas, de vidro, não teria como alguém pular pra dentro da casa por ela.

Quando os dois voltaram sua atenção novamente para a Internet, uma cabeça surgiu na janela, na parte de baixo dela, e mãos seguravam suas grades. Os olhos grandes e verdes da cabeça fitavam fixamente os amigos no quarto. Breno se sentiu observado, e com seu olhar periférico viu algo na janela. Ele virou a cabeça rapidamente e seu coração queimou. Ficou paralisado de medo.

— O que foi Breno? -Caíque arregalou os olhos e olhou para o lado. Seu coração acelerou e subiu para a garganta. Quando sua visão encontrou a cabeça, ele soltou um grito alto e pulou para trás. Ouvindo o urro de Caíque, Breno também gritou. E os dois ficaram gritando até perceber o óbvio.

— Eu, hein? Tavam vendo pornografia é? Seus otários! –a tal cabeça se ergueu. Ela não era apenas uma cabeça, tinha corpo também. Era um rapaz alto e magro, com seus olhos grandes esverdeados e lábios finos. Usava uma toca preta e estava de moletom preto com capuz. Ele ficou ali do lado de fora, em frente à janela, olhando para Breno e Caíque.

— Fabrício? –falou os assustados em uníssono.

— TCHARAM! –debochou Fabrício, abrindo seus longos braços.

— O que cê tá fazendo aí fora? Como entrou no lote? Pulou as grades, foi? –perguntou Breno, indignado.

— Oxe, doido! Pulei nada, não. Sua vó Matilde tava colocando o lixo pra fora e eu perguntei se tu tava em casa, aí ela me mandou entrar!

— E por que apareceu desse jeito na janela? –perguntou Caíque, recompondo-se do susto.

— Eu achei que nem ia dar certo…

— Mas deu! –reclamou Caíque.

—Desculpa então, seus cagão! –falando isso deu uma risada bizarra.

—Entra aí, cara! –pediu Breno.

— Quero entrar não, pô. Bora bater um papo lá fora mesmo! –dizendo isso, Fabrício se dirigiu ao portão e saiu. Breno se levantou, desligou o monitor e foi ao encontro dele.

— Vai ficar aí, Caíque? Não seja antissocial!

— Ah… Já vou.

Caíque não conhecia muito bem Fabrício. Ele havia estudado com o Breno também, mas não nos anos de Caíque. E apesar dele morar perto dali também, era muito difícil encontrá-lo pela cidade. Fabrício era do tipo de pessoa eclética, curtia um pouco de tudo e sabia de tudo um pouco.

Ele era admirado por Breno, que por sua vez, contava as peripécias dele para Caíque. Caíque sempre pensava “O cara é bacana”. E era mesmo. Uma pessoa engraçada e sincera, um pouco desregulada das ideias, nada que atrapalhasse numa conversa. Quem não o conhecia, se o visse na rua, poderia jurar que Fabrício era doido. Talvez por sua forma de andar, de falar ou de olhar para as pessoas.

Os três se encontravam em frente à casa de Breno. Sentaram na calçada e começaram a conversar. O papo fluía muito bem, Caíque observava com curiosidade aquele garoto espontâneo com vocabulário cheio de gírias. Breno ouviu ruídos estranhos vindo de suas costas. Ele levantou.

— Levantem rápido!

Os outros obedeceram. Um rato realmente grande saiu de trás de um mato alto na base do muro e entrou velozmente no lote vizinho, pela porta, que era de madeira e estava trancado com uma corrente. A brecha era espaçosa o suficiente para ele passar.

— Caralho, doido! Parecia um cachorro aquele rato!

— Nem vi, cara! Tá escuro! –disse Breno, procurando o bicho.

— Velho! Só pode ser o mestre Splinter! As Tartarugas Ninjas estão por perto!

Todos começaram a rir. Caíque estava achando aquele “papo de doido” muito divertido. Ouvir histórias sobre o Fabrício era uma coisa, agora estar ouvindo ele ao vivo, era outra.

O movimento da rua tinha diminuído, estava quase deserta. Uma vez ou outra passava alguns garotos de bicicleta, outros andando, até a vizinha louca do Breno saiu para ver o movimento do lugar. Não era o bairro mais seguro de todos, por essa razão, Breno estava sempre alerta, olhando para todos os lados.

— Tô com aquela sensação de que vou levar um tiro.

Caíque e Fabrício o encararam.

 –Vira essa boca pra lá, Breno! Tá repreendido!

— Fala isso não, otário! Porra! Agora eu to com a mesma sensação. Essa tua rua é escrota, filho!

— Eu não tiro sua razão, Fabrício. Uma vez, eu e o Breno voltávamos da escola, e ali na rua de cima – Caíque apontou para a rua que era em frente à casa do seu amigo — O Breno me disse assim: ”Bem aqui, onde eu tô, já mataram uma pessoa!”.

Breno o interrompeu.

— Opa! Foi assim, não! Eu disse que o cara tinha levado um tiro na perna!!

— Não foi no braço, não? Eu ouvi falar dessa treta aí, mano.

–Não, foi na perna! –afirmou Breno.

— Ele morreu, não foi não? –questionou Caíque, cruzando os braços.

— Morreu não, cara! Só foi um tiro dado por um policial! –respondeu Breno, levantando a voz.

— Ah, tá! Mas por que ele atirou? –queria saber Caíque, fazendo uma cara de interrogação.

— O mala tava com um pau na mão, né doido? Batendo em todo mundo que passava na frente dele, até em cachorro! –dizendo isso, Fabrício olhou para a rua do ocorrido.

— Isso aí. Acho que o policial disse que atirou por legítima defesa… –falou Breno, coçando a cabeça.

— Dar um tiro na perna de um cara que tá com um pedaço de pau na mão? Legítima defesa? Ô polícia inútil! –falou indignado Caíque, num tom agressivo.

O papo ia se desenrolando cada vez mais. Às vezes um falava por cima do outro, querendo contar primeiro um fato engraçado ou fatídico. Mas, a atenção estava quase sempre direcionada a Fabrício, pois ele quase não aparecia e suas histórias de vida eram tão interessantes quanto um filme do Steven Spielberg.

As nuvens noturnas haviam coberto o luar, e o vento gelado e úmido começou a soprar, fazendo aquele som de gemidos. O trio de rapazes cruzou os braços e se encolheram.

 

— Sinistro esse vento… –sussurrou Caíque, olhando para cima.

— Vocês vão para a reinauguração do Shopping Mendo? –perguntou Fabrício.

— Peraí… Aquele da lenda urbana?? -Caíque arregalou os olhos. –Você ficou maluco?

— Oxe, doido!

— Eu não sei não, cara. Toda vez que passo lá em frente eu ficou com uma sensação estranha… –Breno não gostava da sensação que aquele shopping trazia a sua mente. Ele já teve vários pesadelos envolvendo aquele lugar.

— Eu não tiro sua razão, Breno. Aquele lugar é maldito! Só pode! Eu também fico meio mal quando passo perto dele. Não sei o que deu na cabeça da prefeitura pra reabrir aquilo!

— Breno, ele vai reabrir semana que vem, bem no dia do seu aniversário, né? –procurou saber Fabrício.

— No mesmo dia em que aconteceu a tragédia…? Vai fazer dezoito anos… -Caíque olhou para o seu amigo. Um silêncio invadiu a conversa deles.

— Eu vou fazer dezoito anos também…

— Caralho! Tenso isso, maluco!

Um sentimento de perda invadiu Breno. Ele morava com a sua avó desde que se conhecia por gente. Ele não conheceu seu pai, nem sua mãe. Diversas vezes ele tentou descobrir o que havia acontecido aos dois, mas sempre que tocava neste assunto, sua avó Matilde dava um jeito de desviá-lo. Caíque estava puxando da memória às vezes que ouviu falar dessa história do shopping, e falou:

— Desta lenda eu não duvido… Meu pai me contava ela quando eu era criança. Ele me ameaçava levar pra lá caso eu não o obedecesse… Eu me borrava de medo… Acho que ainda me borro.

— Vai fazer vinte e três anos que ele foi inaugurado pela primeira vez. Aí, cinco anos depois disso, várias pessoas, a maioria jovens, sem nenhuma explicação começaram a se matar dentro dele, maluco! O shopping desde então foi fechado… E conhecido como…

Breno interrompeu Fabrício.

— O shopping do suicídio e blá, blá, blá… Vamos parar de falar nisso. Eu meio que me sinto mal falando neste lugar.

Caíque ouviu uns grunhidos atrás dele, quando ele olhou viu o mato se mexendo e deu um pulo pra trás seguido de um grito, que assustou a todos.

— O mestre Splinter de novo, otário!

Eles riram depois do susto, e o rato sumiu mais uma vez.

— Mas e então –falava Fabrício — A gente, vai? Só pra saber mesmo. E é o seu aniversário, Breno.

— A gente se organiza. Vou pedir dinheiro pra minha avó, também.

— Só.

Caíque olhou para o seu relógio de pulso e espantou-se. Já eram dez da noite. Ele passou a mão nos seus cabelos bagunçados e se despediu dos outros dois garotos. Fabrício deu um abraço em Breno e também foi embora. Breno entrou em casa, trancou o portão e depois a porta.

Ele foi procurar algo para comer. Não queria jantar e decidiu fazer um lanche rápido. Preparou um leite com Nescau e pegou um pacote de biscoitos de água e sal. Foi para a sala, sentou-se no sofá e ligou a TV. Sua avó surgiu, saindo do corredor.

—Pensei que você ia ficar batendo papo a noite inteira!

— Relaxa vó.

— Trancou o portão? A porta?

— Tudo trancado.

— Então boa noite, meu neto. –ela já ia voltar para o seu quarto, quando Breno a chamou.

— Ei, vó.

— Sim…

— Eu e os meus amigos estamos querendo ir à reinauguração do Mendo… E eu precisaria de grana…

— Você sabe, Breno… Aquele shopping é amaldiçoado!

— Vó, a senhora acredita mesmo nessa lenda urbana? Aposto que o que espalham por aí nem aconteceu! O lugar deve ter fechado por outro motivo! Pessoas se suicidando…? Onde já se viu?! –disse isso num tom de deboche.

— Não duvide das lendas, meu neto… –Matilde estava séria — Elas são calcadas na realidade! Você não era nascido quando aconteceu… Quer dizer… No dia em que aconteceu você nasceu.

— É… A mesma data, o mesmo mês, a única criança nascida nessa data, blá, blá, blá… –estava sendo irônico. Ele voltou o olhar para a sua avó e deu um sorriso amarelo. — Mas e aí, a senhora descola uma graninha pra eu ir?

— Sim… É seu aniversário, afinal. –cabisbaixa, Matilde voltou para o seu quarto.

— Boa noite, vó… Puxa… Toda vez que ela ouve falar do Mendo ela fica assim, estranha. Por que, será?

Mal sabia Breno que ele tinha uma ligação com o ocorrido. O shopping carregava o choro e lamento de diversas famílias por anos. E agora a população daquela cidade queria superar tamanho medo e trauma. Reabrindo o local, batendo com o problema de frente.

O sol demorou a nascer no outro dia. O tempo estava nublado e parecia que choveria durante boa parte do dia. Breno levantou cedo, lavou seu rosto e foi tomar café. Quando chegou à sala, sua avó estava parada em frente à televisão, com uma expressão de espanto e com a mão direita sobre a boca. Ela se virou e viu Breno.

— O que aconteceu, vó Matilde?

Ela se voltou para a televisão. Era um noticiário falando sobre um suicídio. Alguém havia se atirado de um prédio próximo ao shopping Mendo. Breno ficou com o peito apertado, pensando ser algum de seus amigos da noite anterior… Felizmente não era nenhum deles.

— Puxa… Isso nunca aconteceu aqui antes! Não um suicídio…

— Já aconteceu sim, Breno… Há anos atrás…

— O que a senhora quer dizer?

— Que isso é o prelúdio do que vai acontecer… Eu tenho quase certeza… A LENDA RESSURGIRÁ JUNTO COM O SHOPPING MALDITO!

Breno ficou pálido e inexplicavelmente suas pernas começaram a tremer.

Aquilo não era possível.

Continua…

 Fonte:Minilua

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